Gil Karlos Ferri**

Na alvorada deste dia, enquanto remava a sós com meus pensamentos, procurei refletir acerca do itinerário intelectual do historiador francês Marc Bloch (1886 – 1944) e suas correlações com minha atuação enquanto estudante/pesquisador. Assim como os remadores, que seguem posicionados no barco de costas para seu destino, nós, historiadores, também nos posicionamos no presente observando águas que já passaram, interpretando o passado na tentativa de vislumbrar um futuro melhor. Assim, considerando o contexto atual de uma pandemia, a reflexão acerca da trajetória de Bloch apresenta-se como uma oportunidade para repensar minha responsabilidade social enquanto intelectual e formador de novas consciências.

Gil Ferri remando e refletindo – Foto: Fernando Bresolin

Do itinerário de Marc Bloch, dentre tantas outras coisas, pude apreender a relevância do comprometimento social do historiador/intelectual para com seu tempo e espaços de (con)vivência. Conforme observou o historiador Carlos Rojas – referindo-se  ao contexto da II Guerra Mundial–, “se o intelectual não assume o seu compromisso social com o próprio presente e com a sociedade onde vive, torna-se igualmente responsável, pela omissão, do destino e dos rumos que essa sociedade toma […]”.[1] Escolhas teóricas e metodológicas são concernentes a cada pesquisa, entretanto, é imprescindível que historiadores sejam honestos e responsáveis em suas análises e interpretações. Como apontou o próprio Bloch, devemos “considerar a história como a ciência da experiência”[2], a “escola do verdadeiro”[3].

No insight de perceber a história como a ciência da experiência, lembrei-me de um recente ensaio do historiador Donald Worster[4] sobre os impactos socioambientais e a responsabilidade humana diante da pandemia de corona vírus (Covid-19 ou Sars-CoV-2). Seu ensaio, permeado com exemplos de doenças do passado e do presente e incertezas sobre o futuro das relações da humanidade com os demais seres vivos, revela o compromisso desse historiador ambiental com os problemas de sua época e a sociedade na qual está inserido. As experiências diversas que a história nos proporciona, sistematizadas e socializadas por intelectuais conscientes de sua responsabilidade social, contribuem para que o saber histórico possa gerar novas e melhores atitudes no tempo presente.

Para finalizar essa breve reflexão, retorno ao remo. Em seu livro sobre a equipe americana que venceu as Olimpíadas de 1936, Daniel Brown nos diz que nenhum outro esporte mais do que o remo exige o completo abandono do ego. Segundo o autor, “grandes guarnições têm homens e mulheres de excepcional talento e força, mas não têm estrelas. O esforço coletivo é tudo o que importa”[5]. Assim como a trajetória de Marc Bloch e de tantos outros pensadores críticos, esta passagem nos inspira a unir forças intelectuais mesmo que separados pelo isolamento de uma pandemia. Enquanto finalizo esse texto, após uma aula online, o sol se põe no horizonte. Mais um dia compartilhado com professores e colegas na missão de aprender, compreender e agir.


* Texto originalmente produzido para a disciplina Teorias e Metodologias em História Global, ministrada pelo Prof. Dr. Sidnei José Munhoz no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis (SC), 09 set. 2020.

** Doutorando PPGH/UFSC. E-mail: gilferri@hotmail.com

[1] ROJAS, Carlos Aguirre. O itinerário intelectual de Marc Bloch e o compromisso do intelectual com o seu próprio presente. In: MALERBA, Jurandir (org.). Lições de História: da história científica à crítica da razão metódica no limiar do século XIX. Rio de Janeiro: Editora FGV; Porto Alegre: Edipucrs, 2013. p. 417-443. p. 440.

[2] BLOCH, Marc. Como e por que trabalha um historiador. In: MALERBA, Jurandir (org.). Lições de História: da história científica à crítica da razão metódica no limiar do século XIX. Rio de Janeiro: Editora FGV; Porto Alegre: Edipucrs, 2013. p. 444-461. p. 459.

[3] Ibidem, p. 454.

[4] WORSTER, Donald. Otra primavera silenciosa. HALAC – Historia Ambiental, Latinoamericana y Caribeña, vol. 10, Edición Suplementaria 01 (Covid-19), p. 128-138, 2020. Disponível em: <https://doi.org/10.32991/2237-2717.2020v10iEd.Sup.1>. Acesso em: 25 jul. 2021.

[5] BROWN, Daniel James. Os Meninos de Ouro: nove americanos e sua busca épica pela vitória nas Olimpíadas de Hitler. Rio de Janeiro: Sextante, 2014. p. 161.

Categorias: Crônicas

4 comentário

Toninho Naco Farias · 5 de agosto de 2021 às 16:05

Grande pessoa, nosso Remador e Historiador Gil Ferri!!!

Fernando Carvalho Neto · 5 de agosto de 2021 às 17:22

Maravilha , parabéns, são pessoas desse nível, que faz o remo ser grande

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