42.195 metros

Publicado por historiasderemador em

Por Cesar Seara Neto

Quarenta e dois mil, cento e noventa e cinco metros, vencidos em três horas dezenove minutos, quarenta e um VÍRGULA um segundo, em cima de um remoergômetro no Clube de Regatas Guaíba Porto Alegre, o GPA.

Necessário escrever por extenso o numeral, tal qual as professoras de Português nos ensinavam, para que se tenha mais dramaticidade e para que este texto faça mais sentido.

Foi necessário todo este tempo, enquanto minha mente travava uma batalha hercúlea contra o meu corpo, já com cinquenta e seis anos de idade vividos, para perceber que neste nosso mundo moderno, valorizamos mais os resultados, do que a construção deles.

Lembro de Amyr Klink relatando no seu primeiro livro, sua chegada a costa da Bahia, que naquele momento havia acabado o encanto da viagem, mesmo tendo sido o primeiro a cruzar sozinho a remos, o Atlântico.

Faltavam 29.424 metros a remar quando completei minha primeira hora do desafio, e não me afastando da minha formação de engenheiro, a cabeça adora fazer contas, indicando quase treze quilômetros remados, dentro do esperado, ou seja, quase um terço do percurso.

Quando completei uma hora e quarenta minutos remando, sem parar, o visor indicava um saldo de 21,1 km a remar, ou seja, metade, completar a maratona em três horas e vinte minutos era uma realidade. Primeiro gole d’água, algo como cento e cinquenta mililitros (ml).

Mas fazer contas e planejar meu rali era a minha segunda diversão, a minha principal era contar remadas. Explico, há quarenta anos o que tínhamos para controlar nossos treinos, era apenas um relógio de pulso, digital, marca Casio, dito ser a prova d’água, na verdade, resistia a pingos. A contagem de remadas durante um minuto, ou trinta segundos, nos permitia calcular a voga.

Assim contei inúmeras vezes uma centena de remadas. Houve momentos que a dezena após trinta remadas, virasse setenta, mas pouco importava, o que ditava a sequência era a cabeça dominando o cansaço

Com duas horas e vinte, mais uma pausa rápida para outro gole d’água, consumindo boa parte da primeira garrafa de meio litro. Restava APENAS uma hora, eu ainda via no saldo a remar, cinco dígitos, treze quilômetros a percorrer, era uma barbada, como dizem os gaúchos. Seria, não fosse os outros vinte e nove já remados.

O desconforto começava a incomodar, mas a cabeça ainda era a dona da situação. Lembrei da minha mãe, que provavelmente dormia, se acordada estivesse, assistindo o vídeo ao vivo no YouTube estaria pensando: não é muito meu filho? Eu respondo agora que sim, mas esta maratona não iniciou nesta semana. Na verdade, iniciou quando comecei a praticar judô com oito anos de idade, o sensei dizia: judô pernas fortes. No remo também, mas a cabeça ainda mais.

O joelho que na infância acusou certa vez algum problema, recebeu uma intervenção a quase seis anos, mas o desgaste não se repara, pelo contrário, ele continua. Durante esta última hora, o joelho a todo momento respondia presente, mesmo sem a professora chamar seu nome.

A batalha continuava, buscava a todo custo, chegar no indicador do saldo de distância a percorrer, com apenas quatro dígitos. Este momento chegou depois de duas horas e meia. Vitória! Sim, uma vitória, mas não era A vitória. Menos de dez quilômetros, seria fácil e tranquilo. Não foi bem assim que aconteceu.

A frequência de remadas por minuto, a voga, insistia em subir, o que não é de bom tom para os remadores quando fazem trabalho de longa distância, e o rendimento ou passagem, tempo necessário para percorrer quinhentos metros insistia em subir também. Feijão, faltava feijão. Ali não havia posto de combustíveis, tudo que eu tinha, eram meus pensamentos dizendo que eu suportaria.

Várias contagens de remadas se seguiram até o reloginho indicar que ainda faltavam seis km a percorrer. Estes seis km como foram longos, os números mudavam a cada segundo, mas eram sempre os mesmos, no ombro do boreste o anjinho me dizia, você é um cara bom, esforçado, há tanto tempo vem treinando, você vai conseguir.

No ombro do bombordo, o diabinho me dizia, a água do chuveiro está tão quente, tal qual o café que passaram agora, deixa este saldo pendente, noutra oportunidade nós saldamos isto, você tem crédito.

Quando se vai quitar uma dívida, devemos fazê-la a vista, e quando menos percebi, havia somente três dígitos no saldo a pagar, num passe de mágica, viraram dois e súbito, apenas um, indicando que o sonho havia acabado.

Agora com a emoção tomando conta, encerro estas linhas e deixo para que comentem sobre minha analogia, um parágrafo para descrever o resultado, uma lauda para tentar descrever a conquista.

Categorias: Crônicas

33 comentário

Guilherme Bisol · 18 de junho de 2022 às 21:34

Sensacional! Parabéns pela façanha!

Zeca Müller · 18 de junho de 2022 às 21:51

Parabéns pela conquista…
Parabéns pela força mental!

Olinto Corrêa · 18 de junho de 2022 às 22:50

Show meu Amigo Seara,
Parabéns, pelo empenho e superação!

Paulo Silva · 19 de junho de 2022 às 00:18

Seara… Parabéns pelo desafio concluído e pelo belo texto. 🤙🚣👊

Abelardo Antonio Gomes Neto · 19 de junho de 2022 às 07:39

Parabéns Seara!!! Orgulho do remo brasileiro!!! Obrigado pelo texto e pelo exemplo!!!Forte abraço!!!

    historiasderemador · 19 de junho de 2022 às 12:17

    Obrigado Abelardo!

      Gilberto · 19 de junho de 2022 às 21:28

      Querido Seara.
      Tuas crônicas sempre nos colocam “juntos” nas tuas aventuras. Hoje, mais uma vez, te superasses; pelo texto e pelo desafio. Serve de exemplo pra todos nos. Abraco forte e Parabéns.

        historiasderemador · 20 de junho de 2022 às 08:55

        Até eu gostei do texto, afinal ele foi pensado durante três horas, dezenove minutos, quarenta e um vírgula um segundo

Alexandre Tarnowsky · 19 de junho de 2022 às 08:11

Parabéns

Henrique Caliari Vahl · 19 de junho de 2022 às 08:31

Grande Seara Neto, parabéns pelo feito, você sempre foi um cara de fibra, a fibra e algo que separa um remador com uma excelente genética e um baixo rendimento de um cara de biotipo normal mas uma garra e determinação acima da media, essas pessoas são raras e tive a satisfação de conhecer alguns, além de superarem todas as barreiras motivam, contagiam e servem de orgulho a uma guarnição, toca ficha meu amigo rumo aos 50 mil km.

Henrique Caliari Vahl · 19 de junho de 2022 às 09:30

Ops! melhor ficar nos 50 mil metros, kkkkkkkkk

Orlando José Prada · 19 de junho de 2022 às 12:29

Parabéns ao amigo ( irmão de profissão) Seara. Mostrando através de sua belíssima narrativa que corpo e mente precisam estar equilibrados. Abraços

    historiasderemador · 19 de junho de 2022 às 14:48

    Obrigado Orlando. Quem estudou engenharia, sabe que é necessário disciplina para vencer um currículo tão extenso e difícil.

Luiz · 19 de junho de 2022 às 21:16

Parabéns meu amigo. Linda conquista e superação.

Michele · 20 de junho de 2022 às 07:32

Estávamos lá te assistindo! Que desafio, hein Searinha!
Paparabes!

Marta · 20 de junho de 2022 às 18:04

Parabéns parceiro Seara e todos gpeanos que admirávelmente aceitaram este desafio!

Anderson Martins · 22 de junho de 2022 às 08:54

Parabéns pela crônica! Grande abraço!

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