Gêmeos improváveis

Uma guarnição é montada levando-se em consideração os dados antropométricos dos atletas, peso, altura e envergadura. O desempenho também influi, a capacidade cardiovascular, medida por exemplo pelo VO2, volume de oxigênio que o organismo absorve e transforma em energia. Isso pode ser analisado pela potência que o remador desenvolve nos testes de remoergômetro. Testes de força com pesos é mais uma das variáveis que os técnicos podem utilizar para selecionar os melhores. Dentro do barco a habilidade, flexibilidade e elasticidade são características requeridas para quem deseja ter boa técnica e fazer o barco andar. Ao fim, tudo se resume ao barco, o soberano.
Esse cenário pode estar nas anotações de treinadores. Isso é o ideal. Talvez esses atletas sejam os finalistas das Olimpíadas. E nós, meros mortais, como compomos uma guarnição? Nos corredores das garagens, ou naquela copa improvisada com duas cadeiras e mais de dez pessoas tomando café, contando suas façanhas. Naturalmente os grupos se formam.
A aproximação acontece por afinidade. Qual o objetivo de cada um dos componentes? No remo master a qualidade de vida impera, mas há aqueles que só estão felizes se estão vencendo, e na maioria das vezes, o adversário é a própria pessoa.
Eu diria que as guarnições se formam por cumplicidade, ainda que o crime cometido seja matar a preguiça diária, que nos chama para o calor do colchão nas madrugadas de inverno.
Não importa se o atleta é grande ou forte, franzino como eu, ao final todos se curvam e reverenciam o soberano, o barco, mas de cabeça erguida, porque quem mergulha é biguá. É ele quem diz se estamos obedecendo suas necessidades para deslizar de forma rápida e macia sobre a água. Ele aceita nossa força, nosso empenho e retribui anulando o tempo que tenta se fazer presente através de números registrados em cronômetros ou nos modernos contadores de voga.
As posições no barco seguem a cartilha ortodoxa, no centro, a casa de máquinas, os fortes, robustos. Na proa, os metidos, chassi de grilo, que acham que dominam o equilíbrio do barco, mas esse, está nas mãos dos remadores, e ninguém o faz sozinho.
O voga, aquele ser extraterrestre que dura mais do que pilha alcalina, é o cara frio, que não se empolga quando o barco está andando, e mantém o ritmo, mas não se acovarda quando o cansaço se abate na guarnição. Ainda tem aqueles que além de dar a voga como um relógio suíço, carregam o leme no pé, mantendo o barco na reta, tornando a vida do proa uma mera constatação dos caminhos e curvas a serem percorridos.
No fundo, eles estão ali, antes mesmo do sol nascer, uns pelos outros, sabendo que serão comandados pelo soberano, o barco, mas que na verdade, são eles que o conduzem. Talvez isso seja cumplicidade.
Dedico esse texto aos amigos que o remo me dá, em especial a um cara que além de treinar muito, torce para o Palmeiras. Vai também para o Jossiano multifunção da REMOSUL, representando todos que organizaram o REGARI 2026 com muito sucesso.
2 comentário
Juscelino Nunes · 7 de junho de 2026 às 13:13
Histórias de remador
historiasderemador · 7 de junho de 2026 às 15:40
mais uma