O Remo Olímpico Brasileiro tem saia!

Publicado por historiasderemador em

Por Renata Gomes De Moraes Esmanhotto
Há algum tempo, ouvi de um conhecido que “o remo não tem saia”, e aquela frase me marcou profundamente. Ao observar o universo do remo e as inúmeras mulheres — atletas, dirigentes, árbitras e coordenadoras — que fazem o esporte acontecer, decidi pesquisar sobre a contribuição feminina para o remo olímpico brasileiro e encontrei uma história recente, mas de grande impacto.
Para contextualizar, é fundamental relembrar a luta da francesa Alice Milliat, nadadora, jogadora de hóquei e remadora, para incluir as mulheres nas Olimpíadas no início do século XX. As provas femininas de remo só passaram a integrar os Jogos em 1976, em caráter experimental e com distância de 1.000 metros. Foi apenas em 1988 que o remo feminino integrou definitivamente o programa olímpico, com a distância padrão de 2.000 metros.
No Brasil, Dulce D’Ávila Bandeira tornou-se a primeira campeã brasileira de Single Skiff em 1984, ano em que o remo feminino brasileiro entrou no cenário sul-americano. Outro marco importante foi protagonizado por Marisa de Moraes Lisboa, a primeira brasileira a competir em um Mundial, em 1987.
A atleta que abriu as portas para as participações femininas brasileiras nas Olimpíadas foi Fabiana Beltrame, competindo no Single Skiff nos Jogos de Atenas, em 2004. Fabiana, que iniciou sua trajetória aos 15 anos no Clube Náutico Francisco Martinelli (SC) e se profissionalizou no Club de Regatas Vasco da Gama (RJ), consagrou-se campeã mundial em 2011, em Bled, na Eslovênia — apenas dois anos após o nascimento de sua filha, Alice. Ela é, sem dúvida, uma das maiores atletas da história do nosso país.
No âmbito paralímpico, a primeira medalha brasileira veio com Josiane Lima, que formou a guarnição de Double Skiff Misto PR2 com Elton Santana nos Jogos de Pequim, em 2008!
Nossas remadoras enfrentam, com coragem, desafios que vão além do preconceito, incluindo jornadas múltiplas de trabalho e vida pessoal. Atualmente, embora haja mais espaço, ainda é necessário um olhar atento às condições do esporte para as mulheres; a adequação de equipamentos às dimensões e à biomecânica femininas é crucial para a eficácia da remada e a prevenção de lesões. Apesar de todos os desafios para aquisição do material (em todos os aspectos e para todos!), ainda é necessário atenção ao feminino. Não sou atleta, mas imagino como deve ser difícil para as profissionais, por exemplo, encaixar os pés naquelas sapatilhas tamanho quarenta e tanto e ainda performar!!!!
Embora a luta por materiais adequados e a superação física nos barcos sejam aspectos marcantes da trajetória das competidoras, o envolvimento das mulheres no esporte tomou proporções ainda maiores. Isso porque a participação feminina no remo não ficou restrita às atletas.
Na administração, Magali Moreira foi a primeira mulher a presidir a Confederação Brasileira de Remo (CBR), eleita para o ciclo 2021-2024. Vinda de uma família de remadores, Magali foi presidente da Federação de Clubes de Remo da Bahia e atuou como árbitra internacional em grandes eventos, como os Jogos Rio 2016, sendo convocada, também, para Tóquio 2020.
Atualmente, Thais Capovilla, eleita 2ª vice-presidente para a gestão 2025-2028, integra a diretoria da CBR. Com uma trajetória sólida que une a experiência como atleta à paixão pelo poder transformador do esporte, Thais é reconhecida por seu trabalho na área social e, junto ao atleta Alef Fontoura, é idealizadora do projeto “Remo por Todos”.
Outras mulheres ocupam posições estratégicas de alto nível, como Ana Lucia Brochier Kist, que assumiu a Direção da Comissão de Arbitragem da CBR para o ciclo olímpico de Los Angeles 2028. Advogada, jornalista e árbitra internacional licenciada pela World Rowing (FISA), Ana Lucia atuou em eventos de prestígio, como os Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015 e diversos mundiais. Sua experiência prévia como atleta sênior reforça como o conhecimento profundo do esporte colabora efetivamente para o desenvolvimento do remo nacional.
Estes exemplos constituem uma parte pequena, porém vital, da história feminina no remo brasileiro. Ignorar essa trajetória seria desconhecer a própria evolução da nossa cultura esportiva, que formou campeões e construiu comunidades de remadores às margens de mares, rios e lagoas. A tradição não é estática: ela evolui e se amplia.
O remo brasileiro tem saia, sim senhor — e tem também fibra, estratégia, liderança e legado. Ele é feito por mulheres que remaram contra a corrente em tempos difíceis, por gestoras que assumiram o leme e por árbitras que garantem a justiça do esporte com firmeza. Nesse “Dia da Mulher”, afirmar que o remo tem saia é reconhecer uma história plural, movida por muitas mãos que jamais soltaram os remos.

Créditos da foto CBR

Categorias: Crônicas

18 comentário

WERNER GUNTHER HOHER · 7 de março de 2026 às 21:04

Parabéns a todas as mulheres do Remo brasileiro, em especial a Renata por esta homenagem e Histórias de Remador.

    Renata · 7 de março de 2026 às 22:31

    Texto maravilhoso…parabéns a todas as mulheres!

      historiasderemador · 8 de março de 2026 às 10:22

      De Renata para Renata

      Renata Gomes De Moraes Esmanhotto · 9 de março de 2026 às 08:45

      Muito grata, Xará!!! Parabéns para nós!

    historiasderemador · 8 de março de 2026 às 10:22

    Ela extraiu a essência!

    Renata Gomes De Moraes Esmanhotto · 9 de março de 2026 às 08:44

    Muito grata pelas palavras, Werner! Abraço!

Rosângela Mello · 8 de março de 2026 às 06:29

Um lindo texto e justa homenagem a todas as mulheres que habitam o universo do remo. Esporte maravilhoso e difícil onde alguns caminhos ainda são truncados para as mulheres. Mas, seguimos! Obrigada, Renata!

Andre Baracuhy · 8 de março de 2026 às 07:27

Parabéns ao remo feminino que tanto nos orgulha.

Acácio · 8 de março de 2026 às 09:04

É espetacular, Seara, ver que as mulheres, legitimamente, destacam-se e fazem história também no remo.

    historiasderemador · 8 de março de 2026 às 10:22

    Segundo o prof Toninho Naco Farias, as mulheres vão dominar o mundo!

    Renata Gomes De Moraes Esmanhotto · 9 de março de 2026 às 08:47

    Muito grata, Acácio!

Geane · 8 de março de 2026 às 10:23

Parabéns pelo texto! E torcendo para que esse cenário continue mudando! Feliz dia das mulheres!

    historiasderemador · 8 de março de 2026 às 10:34

    Continue prestigiando nosso portal. Muito obrigado.

    Renata Gomes De Moraes Esmanhotto · 9 de março de 2026 às 08:48

    Grata, Geane! Seguimos no trabalho! Feliz dia das mulheres para você também!

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