Tricô a quatro mãos

Minha avó materna, Rosa, estudou somente o primário. Era uma pessoa de personalidade forte e espiritualizada. Nos ensinou muita coisa. Nos momentos difíceis da família era a nossa guia. Habilidosa demais, tudo que colocava as mãos saía perfeito. Cozinhar, costurar, fazer crochê e tricô.
Minha mãe aprendeu esses ofícios com maestria, exceto costurar. Quando minha mãe fazia os lindos blusões de tricô, com tranças e detalhes, no momento da montagem da peça, a costura era feita pela Vó. Seus arremates ficavam despercebidos, do mesmo jeito que o dorso dos seus bordados.
Entretanto, eu nunca as vi sentadas lado a lado tricotando a mesma linha. Fico imaginando como seria duas mãos na agulha da direita, as outras duas na esquerda. Que loucura!
Não sei ao certo se remar dois sem timoneiro seja mais difícil do que executar essa minha utopia. Desde o Brasileiro Master em novembro, nosso dois sem com o forte e habilidoso Gari na voga não ia para a água. Saímos para uma remada num dia nublado e água lisa. Perfeito para remar.
Esse era o propósito, “só remar”. Mas, sempre tem um proa que sonha com a remada perfeita, o barco deslizando, um único som de remos entrando e outro quando saem. Simples. Na teoria sim. Na prática estamos falando de duas pessoas distintas. Peso, envergadura, sem falar na capacidade cárdio do voga, que fôlego!
Minha remada estava atrasada. Quase imperceptível, mas se estava, é porque eu sentia, ou vice-versa. Reconhecer o erro é o primeiro passo para corrigi-lo. Ter vontade é o segundo passo. Ter capacidade é outra realidade. No dois sem um rema para o outro, e os dois remam para o barco. Cada um segura um remo.
O Gari, além de ser membro do canal do YouTube, é uma baita pessoa. Positivo, parceiro. Constrói a guarnição com pazadas silenciosas, transmitindo paz e vontade de melhorar a cada ciclo.
Aprendemos a remar nos anos oitenta, mantendo a continuidade da remada, sem paradas. Hoje em dia com barcos mais leves e pás de remo em forma de cutelo, a frequência (voga) de remadas é mais alta.
Ao final da remada o tronco deve inclinar para trás até a posição de “uma hora” no relógio. No passado nos deitávamos muito mais. Quem pagava era a lombar. Hoje em dia assim que os remos saem d’água com as pás verticais, fazemos o giro delas até que fiquem deitadas na horizontal. Chamamos esse movimento de “molinete”.
– Marca o final. Estabiliza. Depois sai o braço!
Nas palavras do professor João, aproveitamos o momento da estabilização para igualar as alturas dos remos. O equilíbrio está garantido. Água lisa, as pás não tocam nela. Assim elas irão até o momento da pegada, quando giramos novamente até que fiquem na vertical e as deixamos cair n’água.
Simples.
Seria simples se não fossem duas pessoas distintas. Aqui está o grande desafio dos barcos a remo, ser um barco só. No dois sem tudo é mais evidente para quem está do lado de fora, quem rema, precisa sentir.
https://www.youtube.com/clip/UgkxhxysT6yx27LN9a21vjGzCxznpNO7ZyYE
3 comentário
Fernando Oliveira de Miranda · 14 de junho de 2026 às 13:28
Grande Seara, acho que uma das maiores lições que o.Remo nos dá é essa de a gente ter que se adaptar ao outro, sentir o conjunto para o benefício do “barco “. Nao adianta querer ser o melhor e fazer tudo sozinho. Muito boa meditação para o domingo.
Ricardo · 14 de junho de 2026 às 14:35
Que maravilha! Passei de leitor assíduo a personagem de uma história de remador! Valeu, Seara!
Renata Esmanhotto · 14 de junho de 2026 às 14:40
É isso, Seara! O desafio é orquestrar o nosso ritmo com o daqueles que estão ao nosso lado, lembrando que o objetivo tem que ser um só: o de que o barco avance, sempre! Grande abraço!!!