História de um não remador

Publicado por historiasderemador em

Por Joaquim Lopes Correa Neto[1]

Estamos vivendo uma era em que qualquer dúvida pode ser sanada com a ponta dos dedos, cada vez menos com o uso da memória e experiência.

Contar histórias é uma prática que tem a idade da presença humana neste resistente planeta, é um ato muito antigo e que não caiu em desuso, algo raro pois parece que tudo é, de certa forma, descartável, tem vida útil.

Supõe-se que tudo começou com a prática de sentar ao redor do fogo, com a função de tornar a convivência mais encantadora, lembrar de feitos dos que chegaram antes, carregando de drama e emoções simples acontecimentos de dias difíceis, quase nunca para mostrar a vitória como elemento principal, mas a sequência de contrariedades e barreiras superadas, nunca sem deixar cicatrizes, as marcas dos sobreviventes.

Este pingue pongue na linha do tempo nos conduz a fatos e narrativas distantes por séculos, onde a tecnologia não é o ponto principal, mas a figura humana e sua capacidade de buscar chegar mais longe, numa caminhada com muitas paradas, silêncios, suspiros e deslumbramentos.

Inicialmente uma transmissão pela oralidade, ainda não perdida, visto que nos encontros e desencontros, quando um de nós abre o discurso e obtém a atenção de um grupo, por vezes pequeno, de amigos ou familiares, até transmissões que não se restringem aos limites impostos por fronteiras geográficas imaginárias, pensadas nos mapas, ilustradas em sites, tudo que limita desaparece porque a palavra está sendo enviada para ouvidos atentos e outros que acordam ao perceberem que a história o conectou instantaneamente, como aquele cheiro da infância que não se fazia presente. Depois a escrita, que permitiu ao ausente entender qual o contexto daquele momento de conexão, em outro tempo, nos livros, compiladores de histórias.

Uma vez criada a conexão, nossas vidas seguem a rotina, mas a lembrança de uma história bem contada permanecerá conosco. Repassá-la é uma decisão importante, mas não como obrigação, mas para criar novas emoções e percepções aos que chegam depois, ávidos por entender de onde veio um apelido, uma disputa acirrada, uma forma de propelir uma pessoa ou grupo sobre a água, nem sempre favorável, por muitos metros contados a cada esforço do corpo inteiro, a origem da prática, a capacidade de envolver até os que nunca estiveram numa embarcação e, certamente, curiosos de capturar a essência que os fazem acordar antes dos outros, pisar a água muito fria, suar pela exigência física extrema, depois abrir um sorriso quando atinge o objetivo ao olhar ao redor e perceber apenas um dia lindo.

Sem as histórias que nos contam, a vida seria bem monocromática e cartesiana.


[1] Joaquim, mais conhecido como “Ameba”, amigo de longa data. Ao lado do Zé White compõe a dupla de maiores figuras que conheci na minha vida. Únicos e exclusivos, ninguém se compara a genialidade deles. A foto do meu pai recebendo o livro no dia do lançamento em Florianópolis, é de sua autoria, assim como as demais já publicadas.

Categorias: Crônicas

4 comentário

Acácio · 4 de abril de 2026 às 19:22

A qualidade do texto, Seara, tem a mesma enorme grandeza do caráter de seu autor. Parabéns pela iniciativa de abrir este concorrido espaço ao querido Ameba

ROBERTO MULBERT · 4 de abril de 2026 às 22:38

Joaquim Lopes Corrêa Neto, famoso pelo apelido Ameba.
Sua presença nas Histórias de Remador engrandecem o
Projeto do amigo e grande atleta Seara Neto.
Texto espetacular e muito interessante para nos alegrar com sábias palavras.
Agradeço pela sua presença e muito mais por apoiar o projeto.
Espero te ver por aqui novamente.
Grande abraço

    historiasderemador · 5 de abril de 2026 às 08:34

    Grande amigo e sota-voga! Esse espaço está aberto para todos que queiram se manifestar a respeito do remo. Gostaria muito de “ouvir” as tuas aqui. Algumas estivemos juntos, no mesmo barco!

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