A fórmula do Hexa

Publicado por historiasderemador em

Por Luiz Felipe da Silva*

O sonho do hexa não será conquistado apenas com paixão. Será conquistado com política pública.

Há quem acredite que o hexa chegará apenas pela paixão do povo brasileiro e pela fé nas cores da nossa bandeira. Esse sentimento, sem dúvida, traduz parte da identidade nacional e da relação histórica do brasileiro com o futebol. Mas, no esporte de alto rendimento, paixão não substitui planejamento, nem tradição supera método.

Antes de produzir resultados extraordinários, o esporte se manifesta por meio da participação. Ele nasce quando crianças e jovens têm acesso democrático a oportunidades de qualidade, bons professores, infraestrutura adequada e experiências esportivas diversificadas. É exatamente nesse ponto que o Brasil falha.

O futebol brasileiro deixou de ser tratado como um projeto estratégico de desenvolvimento humano e passou a ser visto, predominantemente, como um produto. Um produto de entretenimento, de audiência, de negociação de atletas e de geração de receitas. O mesmo acontece com o esporte brasileiro como um todo. Enquanto isso, o esporte escolar público permanece, em grande parte do país, sucateado, negligenciado e tratado como algo secundário.

Hoje, para que uma criança tenha acesso ao esporte de qualidade, estrutura adequada e acompanhamento profissional, normalmente é preciso pagar e pagar caro. Isso restringe as oportunidades a uma pequena parcela da população. O resultado é inevitável: reduzimos drasticamente nossa base de talentos. Nenhuma elite esportiva consegue ser maior do que a qualidade e a abrangência da sua base.

Enquanto isso, países europeus ampliam continuamente essa base. O futebol europeu não é superior apenas porque possui mais dinheiro; ele é superior porque trabalha sobre uma densidade muito maior de atletas bem formados desde a infância. Quanto maior a quantidade de jovens recebendo formação de excelência, maior a probabilidade de surgirem atletas extraordinários.

No Brasil, o mercado passou a ditar prioridades. A importação crescente de jogadores, somada à lógica comercial, muitas vezes sufoca aquilo que historicamente tornou o futebol brasileiro único: a criatividade, a improvisação, a inteligência motora construída nas múltiplas vivências da infância e a liberdade para jogar. Em vez de formar talentos para fortalecer nosso futebol, frequentemente formamos jovens cujo maior sonho é apenas conseguir uma oportunidade na Europa, porque sabem que, dentro do próprio país, as condições de desenvolvimento são limitadas.

Essa realidade não é inevitável. Ela é consequência de escolhas políticas.

Países como a Noruega, reconhecidos internacionalmente pela excelência de seu sistema educacional, compreenderam há décadas que educação e esporte caminham juntos. Nas escolas públicas, o desenvolvimento integral do estudante passa necessariamente pela atividade física, pelas múltiplas experiências motoras, pelo acesso a instalações de qualidade e por professores valorizados. O esporte não é tratado como recreação; é entendido como parte essencial da formação humana.

No Brasil, infelizmente, encontramos professores de Educação Física que, muitas vezes, precisam comprar materiais com recursos próprios para conseguir ministrar uma aula minimamente digna. Esperamos formar campeões enquanto negamos às crianças o direito ao esporte de qualidade. Esperamos conquistar o mundo sem investir, de forma séria, na origem de tudo.

Nenhum país se torna potência esportiva apenas porque ama o esporte. Torna-se potência porque transforma esse amor em política de Estado, investimento contínuo, planejamento de longo prazo e acesso universal.

Talvez o maior desafio do Brasil não seja conquistar o hexa. Seja compreender que o hexa começa muito antes da Copa do Mundo. Ele começa na quadra da escola pública, no campo do bairro, no professor valorizado, no material esportivo disponível e na criança que encontra, no esporte, uma oportunidade de desenvolver todo o seu potencial.

Enquanto tratarmos o esporte como um negócio e não como um direito, continuaremos comemorando talentos individuais e lamentando fracassos coletivos. O hexa não nasce no estádio; nasce na escola.

Esta é a opinião de um professor de Educação Física, ex-atleta e gestor esportivo que acredita que o verdadeiro legado de uma nação esportiva começa muito antes do alto rendimento: começa quando o Estado garante a cada criança o direito de aprender, brincar, competir e sonhar através do esporte.

(*) Luiz Felipe da Silva, mestre em Educação Física e atual presidente da Confederação Brasileira de Remo

Categorias: Crônicas

1 comentário

ENIO ROBERTO GONCALVES FERREIRA · 8 de julho de 2026 às 10:54

Sensacional abordagem. Concordo plenamente. Aqui brincamos com a estrutura do esporte e torcemos para que de quando em quando apareça um atleta, seja de que esporte for, com um dom natural (ou sobrenaural) para praticá-lo com excelência. Enquanto os EUA e muitos países da Europa e Ásia formam seus atletas, nós garimpamos os nossos e depois falamos em safra boa ou safra ruim. Uma pena

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