A fobia de cada um
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Por Clodoaldo Cabral Da Trindade Junior[1]
Numa noite, passo correndo da sala de minha casa pelo pequeno corredor escuro que terminava na cozinha. Fui crescendo meio amedrontado, mas nunca soube que fobia era essa.
E assim, segue a vida. Melhorei ao longo do tempo, isso é fato. A idade ajuda.
Mas ainda restava outra fobia, a água. Sim, eu tinha pavor da água de mar, lagoas e rios. Não sei o motivo, mas tinha.
Jogava pelada na praça descontruída, onde só tinha areia e barro, com traves de tijolos de oito furos, coisa rara na época, e na rua aqueles famosos paralelepípedos especialistas em arrancar o chaboque do dedo do pé. Era terrível, e para não tomar banho, uma bela desculpa.
Acho que era a única atividade esportiva que um adolescente daquela época tinha, e creio que até hoje muita coisa não mudou, jogar bola na rua ou em quadras que não nos pertencia. Era viciante, e todas as tardes o relógio biológico alertava de que a hora da pelada estava chegando. Era muito gratificante ter a perspectiva de fazer um gol e vibrar, mesmo sendo um verdadeiro perna de pau, e como seria difícil deixar aquilo tudo.
Um belo dia, já com meus 19 anos, um dos amigos que vezes por outra aparecia para jogar conosco, me convidou para conhecer o Sport Club de Natal. Um clube de remo que jamais tinha ouvido falar. Eu respondi, nunca. Eu não sei nadar, e tenho medo de águas turvas e no rio então, nem pensar. Acho que eu pesava em torno de sessenta e cinco quilos, talvez sessenta e oito, com um metro e oitenta e quatro centímetros de altura, imagine a magreza. Não fazia uma barra sequer.
Depois de muito insistir, não sei de onde tirei a valentia e coragem. Saí da Cidade Alta, bairro onde nasci, e desci a ladeira em direção ao bairro da Ribeira, pensando no que iria encontrar numa rua histórica dos primórdios da fundação da Cidade do Natal, local que viveu intensamente a segunda guerra mundial. Sim, Natal foi o Trampolim da vitória.
Um mundo novo despontava à minha frente. Quando cheguei, muito tímido, vendo muita gente pegando peso, contando vitórias e histórias de remador, a qual para mim, era outro mundo que estava se formando ao meu redor.
Aquele cheiro de maré, de lama, de peixe, sim, havia muitas empresas de pesca, e de tantas outras particularidades de nossa arena aquática. Até hoje, sinto e relembro quando sopra um vento brando que penetra em nossa garagem sem pedir licença. Que ar maravilhoso, até o odor do óleo diesel das embarcações dentro d’água, ainda hoje me faz voltar aqueles bons tempos.
Esse novo mundo estava começando a me mostrar aquela gente forte, conversadora, desafiadora, destemida, instigadora, bravos e valentes, no bom sentido do termo. Virei fã e eles, referência.
Nas cores vermelho e preto, numa pequena flâmula em destaque que havia no clube, eu ainda não tinha noção, mas uma certeza havia, era ali que eu nascia para desafiar os medos, a timidez, a adolescência e por que não, os outros. Afinal, os outros são os outros, e eu queria tentar ser melhor, mesmo num corpo que desafiava a grandeza do remo, das regatas e dos adversários.
Não digo que sofri com a gozação dos mais experientes, pois antes que assim fosse, eu admirava as vitórias, as resenhas e as histórias de remadores fortes, resistentes e destemidos. Era muito bom aquele espaço de eternas verdades contadas todos os dias pós treino. Bom de ouvir, bom de lembrar.
Hoje, como presidente do Sport Club de Natal, o gigante do Potengi, codinome dado carinhosamente, vejo adolescentes entrando pela primeira vez em nosso clube, de olhos esbugalhados e com imensa curiosidade em desvendar os caminhos e os segredos daquele barulho feito pelas barras de ferro e das manilhas enferrujadas pelo tempo. Me sinto como eles.
Minha empatia acelera e me engrandece ao receber cada garoto, as vezes tímido, outras nem tanto, cheio de curiosidade e desejo em conhecer um esporte tão diferente das quadras de futebol ou de outro lazer já visto, e dentro desse contexto, posso afirmar, nunca desistam, afinal, coisas boas levam tempo para adocicar, e sonhos nunca envelhecem.
Muitos desses garotos, tem problemas em casa. Alcoolismo, separação dos pais, filhos criados sem o pai, enfim, são pessoas que sei me identificar como eles, pois, na adolescência, eu tinha um pai alcoólatra, e sei bem como é conviver num ambiente assim. E se venci, sei que cada um deles poderá vencer, respirando aquele ar de maré, convivendo com os outros e tentando ser diferente do que é. Empunhar o remo e descarregar suas fobias, torna-se a melhor terapia. O remar passa a ser o melhor remédio. Estava prescrito pelo destino, que me pegou pela mão e me conduziu aquela garagem.
Você que tem seu clube de remo, participa de suas atividades, veste a camisa ou cria momentos, acenda a fagulha do pertencimento em cada novato, pois estou convicto que teu clube nunca mais será o mesmo. O clima será outro, e cada parede do quadrado ou do retângulo que possui suas cores, terá mais brilho.
Acho que já me estendi o suficiente para mostrar que nossos clubes de remo, são verdadeiros laboratórios biológicos e terapêuticos, onde a cura está na interação de seus remadores e dirigentes, e que ao constituírem uma equipe, derrubará paradigmas, e contarão sempre uma nova história de remador.
[1] Presidente do Sport Club de Natal
1 comentário
Karem · 11 de janeiro de 2025 às 12:55
Que relato tão cheio de vida , a cada frase lida consegui sentir e usar a imaginação para cada momento descrito !
Achei muito cirúrgico cada palavra dita com tanto fervor e convicção do que se é e faz para ser não apenas melhor pra vc mas para tantos que necessitam de acolhimento .
Sem dúvidas o esporte cura e salva é o Sport clube tem feito esse brilhante papel de ser caminho pra tantos poderem alcançar seus objetivos na vida .