A alma de um barco

Publicado por historiasderemador em

Por Cesar Seara Neto

Uma foto ou um nome são capazes de nos fazer refletir sobre nossos próprios pensamentos, aqueles, muitas vezes internalizados somente. Aproveito o caderno velho para escrever o último texto do ano, compartilhando com a comunidade uma pergunta: os barcos de madeira eram mais bonitos do que os modernos de fibra?

A beleza da madeira não reside apenas na estética das suas fibras e cores que davam um desenho natural e único em cada casco. Tons mais escuros, mais claros, avermelhados, amarelados ou puxando para o marrom. Com certeza há alguma mística por trás disso.

Talvez a maior beleza seja a oculta, a que não vemos ou medimos, o tempo necessário para a produção de um barco. A semente germina, cresce e vira uma árvore. Quantos anos são necessários para o cedro atingir a fase adulta, para assim ter sua madeira serrada, seca, emparelhada e esquadrejada?

Um barco de fibra necessita de uma fôrma para receber a resina com as fibras de carbono, vidro ou kevlar. Isso depende do seu dono, se quer resistência, leveza e o principal, reduzir custos. Depois vem a colmeia sobre a resina, em células hexagonais tal qual as abelhas fazem. Este tipo de estrutura dá leveza e resistência ao mesmo tempo. Por último, a outra camada de resina, completando o sanduíche. Mas a pergunta, onde está a alma desse barco? Ela está nas mãos do construtor, que representa o nome de uma fábrica, muitas vezes a fábrica leva o seu próprio nome, como por exemplo Vicente Dors ou Talis.

Nos anos oitenta, Stämpfli era a marca suíça referência. Tinha os barcos mais leves, mais bonitos. Eram caros. Ainda continuam na ativa, desde 1896. O processo de secagem das madeiras levava quase dez anos para ser concluído. Quem dispõe desse tempo hoje em dia? Sem falar do tamanho do galpão para receber um volume grande de madeira, com ventilação e temperatura controlada.

Aqui no Brasil, nos anos oitenta quando comecei a aprender a remar, havia um nome por trás dos barcos produzidos ou fabricados. Fernando Ibarra. Gaúcho, levou o remo consigo em vários estados da nação. Montou uma fábrica em São José, SC e foi um dos principais construtores nessa década. Minha reverência, a ele. A escassez é o principal tempero da ciência econômica, meus primeiros contatos com o remo me ensinaram isso. Nenhum doutor me falou.

Um barco é um bem precioso que recebe diariamente nossos esforços alavancados pelos remos. Ele deve resistir e deslizar sobre as águas. Sem o barco não somos nada, apenas vontade.

Esse texto é dedicado aos artífices que através das suas mãos, constroem naus que nos desafiam a nos superar.

Feliz Ano Novo.

Categorias: Crônicas

4 comentário

Joaquim Correa · 28 de dezembro de 2025 às 09:59

Obras de arte em movimento.

Rubén · 28 de dezembro de 2025 às 10:14

El arte de la precisión. En el estado de Washington, el equivalente a Ibarra fue el constructor inglés George Pocock que trabajó casi toda su carrera para la Universidad Estatal. Todavía hoy, 100 años después, se pueden remar algunas de sus embarcaciones.

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