Ninguém te ensina

Publicado por historiasderemador em

Por Renata Gomes de Moraes Esmanhotto

Ninguém te ensina a ser mãe de atleta.
A gente começa a entender o que é ser mãe de atleta quando aquele ser que nos ensinou a amar incondicionalmente resolve que encontrou o próprio esporte favorito, aquele que faz com que seus olhos brilhem, que muda a sua rotina, que faz com que ele acorde às 5h (com alguma ajuda às vezes… ou quase sempre…) para se sentir completo.
Sempre amei futebol, especificamente o São Paulo Futebol Clube, por influência do meu saudoso pai, Sr. Ivaldo, e o meu inesquecível avô paterno, Sr. Tibúrcio, além dos tios paternos, Tio Wilson e Tio Rubens. Amados.
Apesar das raízes em Bauru-SP e da paixão herdada pelo futebol, foi nas águas que a nossa vida realmente se transformou.
Quando estava grávida do Otávio, minha certeza era tanta que liguei para a escolinha do SPFC aqui em Curitiba perguntando sobre matrícula. Ouvi do atendente um riso e um conselho: que eu esperasse o nascimento para ver se o futebol seria mesmo a escolha dele. A previsão, por mais irônica que parecesse na época, concretizou-se.
Ficou claro que o destino dele estava longe dos gramados quando, em março de 2023, apesar de no seu primeiro contato com o barco, ter dito ao pai: “Não sei o que você gosta tanto”, corrigiu a sua fala apenas um mês depois: “Pai, finalmente eu encontrei o meu esporte”. Foi o pai que esperou, pacientemente, que ele chegasse aos 12 anos para levá-lo ao Parque Náutico, na raia em que remou há quase vinte anos, e a descoberta do Otávio virou a nossa vida de cabeça para baixo.
Não é fácil percorrer a cidade de segunda a sábado (45min ida e 45min volta) para levá-lo aos treinos. Não é fácil adaptar a rotina para acompanhar os campeonatos – sim, sou desse tipo de mãe. Não é fácil olhar nos olhos dele quando se decepciona com algo que não deu certo no treino ou no campeonato.
Não foi fácil buscá-lo na escola, ano passado, no dia em que rompeu parcialmente o ligamento patelar jogando basquete durante o intervalo e ouvir dele, aos prantos e sem conseguir encostar o pé no chão, a frase que partiu meu coração: “Meu Deus, mãe, nunca mais vou conseguir remar”. Ele só pensava no remo… e eu, sem saber da gravidade da lesão e impossibilitada de compartilhar minha angústia no momento (com o marido viajando e treinador da época em seletiva nacional), só conseguia pensar: “Que ele volte a andar sem sequelas”.
Não foi fácil, mas ele conseguiu! Foram seis meses de tratamento, de resiliência… e foi o período em que descobri que, realmente, tenho um atleta dentro de casa, que lutou muito para conseguir voltar a fazer o que mais gosta e tendo apenas dois meses para se preparar para o campeonato que aconteceria no final de outubro, encarou o desafio, deu tudo o que tinha e se superou!
Mas o mais importante é que a parte feliz supera todos os desafios! O olhar de felicidade dele quando atinge o objetivo traçado pelo técnico ou de realização quando, mesmo sem a vitória, sabe que fez o possível, compensa cada esforço.
Não tem preço ver a sua luta diária, não tem preço vê-lo, mesmo nas férias, correr para não perder o condicionamento físico, não tem preço ver que, mesmo contra tudo e contra todos, cada vez mais, ele quer se preparar, quer evoluir, por ele!
A paixão do Otávio transformou a família e nos apresentou um mundo completamente novo, envolvendo a todos, inclusive a Isabel que deixou o seu primeiro amor, o Judô, um pouco de lado para mergulhar no remo junto com o irmão. Nessa nova jornada, passamos a conhecer pessoas de todos os perfis e convivemos com atletas e técnicos de um calibre inacreditável.
Ser mãe de atleta é acompanhar tudo isso e, no final do dia, se descobrir aprendendo e escrevendo sobre remadas, medalhas, finca pé e forqueta sendo que “até ontem” não sabia a diferença entre canoe e skiff.
Quando um filho nasce, nasce uma mãe… quando nasce um atleta, nasce a mãe do atleta… aquela que precisa aprender a silenciar a sua expectativa, a sua ansiedade e, com resiliência, comemorar cada pequena conquista, dos segundos baixados à melhoria da alimentação ou à resolução de dormir mais cedo.
É lindo acompanhar a “transformação” do meu menino em atleta e adotar outros “filhos atletas” pelo caminho foi inevitável. A mãe de atleta reconhece o esforço daqueles que estão próximos e passa a amar, defender, torcer e lutar por aquele que tem o mesmo sonho do seu filho.
Ainda estou aprendendo a ser mãe de atleta… o desafio é aceitar ser cada vez mais desnecessária, “passar o bastão”, mas é gratificante descobrir o que ele está se tornando diante dos meus olhos, o que o remo e as pessoas que o acompanham estão fazendo dele e, às vezes sem entender, respeitar as suas escolhas.
Ninguém ensina… é percorrendo o caminho que se aprende. Ainda bem que há anjos nas nossas vidas para nos guiar. Tudo no tempo de Deus.

Categorias: Crônicas

7 comentário

Acácio · 18 de janeiro de 2026 às 16:40

Que lindo texto!

    Renata · 18 de janeiro de 2026 às 18:48

    Obrigada, Acácio!

    Renata · 18 de janeiro de 2026 às 19:58

    Muito grata, Acácio!

Glaucio · 18 de janeiro de 2026 às 19:40

PARABÉNS Renata, pelo incondicional apoio ao seu filho. O REMO é assim ele vem do nada e fica pra sempre…. Que ele trilhe caminhos difíceis árduos mas com a estrutura familiar e um bom acompanhamento técnico ele venha a ser destaque no futuro…!

    Renata · 2 de março de 2026 às 14:41

    Muito obrigada, Gláucio! Deus te ouça!

Werner · 18 de janeiro de 2026 às 19:44

Ótimo texto, parabéns a família pelo incentivo!

Renata · 2 de março de 2026 às 14:41

Muito grata, Werner!

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