Ainda bem

Publicado por historiasderemador em

Por Cesar Seara Neto

Minha mãe viajou sozinha para fora do Brasil falando seu inglês desenvolvido com a Dona Rosa, uma grega que conhecemos em Boston. Um gesto levantando o indicador, seguido das palavras Excuse me, de forma educada, foi seu passaporte para entrar em alguns países.

Meu pai também se comunica bem com todos, sem receio de chegar a pessoas desconhecidas. Essa ousadia no senso comum é chamada de “cara de pau”. Não sei se essa característica é transmitida de forma genética, ou pelo exemplo, mas é fato que uni essa qualidade deles e me atrevi a contar Histórias de Remador de pessoas conhecidas por mim e de muitas que ainda não conhecia. Novos amigos surgiram e amizades antigas foram estreitadas. Uma delas que me orgulho foi com o Chicão.

Ele se orgulhava de ser chamado dessa forma. Ao mesmo tempo que indicava sua simplicidade, o sufixo superlativo combinava com seus dois metros de altura de pura doçura.

Jamais esqueceremos o café que Dona Heloísa nos proporcionou no ano de dois mil e vinte e um, quando fomos recebidos no belo apartamento, onde é possível enxergar a baía norte, onde ele e eu demos muitas remadas, ainda que em décadas distintas. Nessa data entregamos com orgulho e admiração, um caderno confeccionado a mão pela Gica, minha companheira, assistente de bastidores e palco, como prêmio pela LIVE mais assistida naquele ano. Ainda é um dos vídeos prediletos do público.

Ele me confessou numa ligação telefônica após a LIVE, que naquela data foi dormir tarde, tamanha a euforia pelos momentos vívidos ao vivo, e assistindo logo após ao término ao vídeo já gravado, revendo as “palhaçadas” que havíamos dito. Já na abertura ele agradece a noite memorável que “eu estava proporcionando”.

– Acordei com uma ressaca intelectual. Só mesmo um gênio para brincar com as palavras, associando o exercício do resgate histórico aos prazeres mundanos.

 À vida não cabe arrependimentos pelo que fazemos, mas sim pelo que é relegado e não realizado. Em outubro do ano passado estive em Florianópolis para o evento de lançamento do meu livro na minha terra natal. Convidar o Chicão era peremptório, mesmo sabendo que seria quase impossível seu deslocamento devido ao seu estado de saúde.

Quando a fila de autógrafos se iniciava, ele me ligou. Pude “ver” o seu sorriso pelas palavras que escutei ao telefone. No dia seguinte entreguei o livro em mãos com uma singela dedicatória. O encontro rendeu mais histórias e risadas. Ele gostava de rir. Era uma mente brilhante.

Ainda bem que eu fui.

Categorias: Crônicas

5 comentário

Acácio · 25 de janeiro de 2026 às 12:10

Emocionante!

Joaquim Ameba · 25 de janeiro de 2026 às 14:58

Homenagem da melhor qualidade, com a dose perfeita de simplicidade, com a beleza de quem falou de amor sincero. Fizeste a melhor das homenagens, bom amigo Seara.

Luiz Augusto Gonçalves · 26 de janeiro de 2026 às 10:16

Belíssimo texto Seara.

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