Um líder de costas

Existem mitos e lendas sobre a escolha do voga da guarnição, aquele sujeito que senta a frente de todos e que dita o ritmo. Aqui começa uma confusão de termos e conceitos. Voga na linguagem do remo é o número de remadas por minuto, na física é chamado de frequência, ciclos por unidade de tempo. Talvez um sinônimo para ritmo.
Ritmus dizia o alemão Wujanz para nós, seguido de schneller, mais rápido. O que ele se referia era ao remo, ainda de madeira. Ele queria que o remo permanecesse menos tempo dentro d’água, ou seja, ele tinha que passar mais rápido. Acabei, ou acabamos descobrindo que o ritmus era a relação entre o tempo do remo dentro e fora d’água.
Não adianta, o barco é soberano. É ele quem nos diz se está andando, basta ter ouvidos atentos. Já disse isso, a audição é o nosso maior aliado. Conversar no barco é uma heresia, uma falta de respeito com o soberano que está ali tentando nos dizer o que fazer.
O voga deve ser o melhor remador de todos. O mais forte, resistente, o mais técnico. Além dessas qualidades, constância, afinal são seus tempos que compõem a música que o barco toca.
Porém, o voga é um ser humano como qualquer pessoa, talvez não. Ele é o líder que dá as costas para os seus liderados, sabendo que na verdade, sozinho ele não faz nada. Ele cresce e fica mais forte quando os demais componentes do barco atuam de forma tão semelhante, sincronizada, que se tornam as one, como um só, já dizia o timoneiro do oito norte-americano na Olímpiada de Berlim em 1936. Quem ainda não leu o livro The boys on the boat, já perdeu tempo demais.
Entretanto, uma curiosidade, o livro é escrito por Daniel James Brown, que ouviu os depoimentos do sota-voga Joe Rantz, o remador que fica logo atrás do voga. Para mim uma das posições mais importantes do barco. Ele atua como o porta-voz do soberano, o barco. Ele tem que entender o que o seu líder que está a sua frente, porém de costas, está a dizer, repassando a mensagem para os demais componentes, de forma silenciosa, sem palavras, apenas com os remos que estão em suas mãos.
Essa linguagem podemos até escrever textos, elaborar teses e manuais, mas somente é desenvolvida dentro d’água num processo infinito, onde se constrói a confiança mútua, remada a remada.
13 comentário
Rodrigo Görgen · 19 de abril de 2026 às 11:09
Mais uma mentalidade que podemos levar da vida de remador, para o mundo aqui fora !
Marcelo Roberto da Silva · 19 de abril de 2026 às 11:21
Todos tem sua função e importância. Fazendo uma analogia com uma empresa, nada adianta pensarmos na função de cada um, mas no processo que se quer. Seara Neto, sempre soube como prôa, olhar sua equipe e tirar o melhor dela com maestria.
historiasderemador · 19 de abril de 2026 às 17:28
Grande Marcelo galego! Quando a guarnição é boa, as coisas ficam fáceis para todos, para o proa nem se fala!
historiasderemador · 19 de abril de 2026 às 17:27
Quando escrevi esse texto, foi porque remei na voga de um four skiff, justo eu que sempre fui proa. Não havia pensado nessa extrapolação, mas gostei da tua análise.
Dilermando Cattaneo · 19 de abril de 2026 às 12:06
Baita texto, Seara. Mais uma das grandes lições que aprendemos, constantemente. Inclusive para entendermos quem pode ou deve ser nosso voga.
historiasderemador · 19 de abril de 2026 às 17:25
Já escrevi certa vez: Todo remador é um líder. Cada vez mais, me convenço disso. Cada um com seu tipo de liderança, silenciosa, pelo exemplo, pelo convencimento e por aí vai.
Otávio d'Àvila Bandeira · 19 de abril de 2026 às 12:57
Bom dia meu querido Seara. Primeiramente, parabéns pela iniciativa, falar e provover um esporte tão lindo e repleto de dificuldades para ser desempenhado. Se pararmos para analisar, precisa ser muito forte para praticá-lo. Refiro-me a força mais difícil de ter…não a fisica…mas a mental. Levantar cedo, no frio ou no calor, por vezes no escuro, muitas vezes na chuva, fazer força, concentrar, dominar o barco no vento, na marola, enfrentar o calor, as dores…enfim, todas as dificuldades que sabemos ter o esporte. Tem que querer muito.
Mas ouso discordar, com todo respeito, do conceito quase unânime, de que o voga do barco tem que ser o melhor remador.
Na minha visão e experiência, o voga tem que saber desenvolver um bom ritmo…e mantê-lo. Óbvio que se ele agregar outras qualidades, melhor. Mas a formação de uma guarnição deve ser analisada em vários fatores. No duble que remava com o Fantoni, qdo trocamos e fui para proa, o barco se transformou e teve uma melhora de 10 segundos. Por que? Porque eu era mais forte, remava mais forte, a passagem ficou mais ágil, liberou o barco para remar melhor tecnicamente e por ai vai.
Já no duble com o Zé Raimundo, um duble mais potente, fui para a voga…
O Zé, mais forte do que eu…éramos um barco agressivo. No primeiro tiro já fizemos 6.25. Tempo de medalhista mundial na época. Em um barco de 4 …o número 3 é importantíssimo, impulsina e administra o voga, transmite a remada eliminando qq deficiência do voga…segura e norteia os outros remadores. Tem que ser um cara pensante.
Vejo hoje, as formações das guarnições serem feitas de forma errônea, sem uma avaliação de critérios. Lembra sempre que um dos melhores remadores que vimos foi o Redgrave…nunca foi voga!
historiasderemador · 19 de abril de 2026 às 17:24
Perfeito Bandeira. Abri o texto sobre mitos e lendas sobre a escolha do voga. Importante essa nossa troca de informações, ainda mais de alguém que remou durante tanto tempo, tendo inclusive, representado nosso país numa Olimpíada num quatro com, sendo que a tua especialidade sempre foi a palamenta dupla. O canal continua aberto e esperando uma oportunidade para um bate-papo. Quem sabe?
LUCIANO BENTO · 19 de abril de 2026 às 13:40
Que baita texto Seara, sabes que o grande Figueroa disse que
se tivesse o Caçapava jogando como volante, ele zagueiro que era, jogaria até os 40 anos. Da mesma forma digo, se tivesse o sota voga Aurélio Martins ainda remando, lá nos longínquos anos 80-90, seria voga até agora nos anos 2026,( isso que sou master F).
Esplico. Muitas vezes estava cansado na raia, e dizia para o Aurélio,( BORESTE REMADOR SOTA VOGA, O MAIOR Remador DE PONTA QUE CONHECI), fazer a voga, e depois de algumas remadas pegava o ritmo e fazia a levantada.
historiasderemador · 19 de abril de 2026 às 17:20
Quando a guarnição se conhece, a comunicação sempre ocorre.
historiasderemador · 19 de abril de 2026 às 17:20
Quando a guarnição se conhece, a comunicação sempre ocorre.
Antonio Ricardo Lanfredi · 19 de abril de 2026 às 14:31
Grande mestre Seara.
Fazendo um contraponto, eu, como amador iniciante no remo, tenho minhas dificuldades no double de buscar a sincronia perfeita com o voga: encaixe na água, desenvolvimento da remada e saida da água.
Certa feita, um treinador que comandou a seleção brasileira em algumas olimpíadas, me vendo remar o double, corrigiu a formação e me colocou na voga, com o argumento de que, mais do que a forca, a sincronia é decisiva no remo.
historiasderemador · 19 de abril de 2026 às 17:18
Como escrevi no texto, o barco é soberano.