As melhores obras da arquitetura moderna

Publicado por historiasderemador em

Por Rafael Barberena (escrito originalmente em 22.05.2012)

Berlim, 1828. No tempo das carruagens e dos lampiões a óleo, dois luminares da ciência alemã, Alexander von Humboldt e Carl Friedrich Gauss, caminhavam, noite feita, pelas ruas pouco iluminadas da capital. No trajeto até o hotel onde estavam hospedados por ocasião do Congresso Alemão de Naturalistas, Gauss sentenciou que aqueles lampiões logo funcionariam a gás, e, então, a noite deixaria de existir nas cidades. Humboldt, com trabalhos nos campos da antropologia, etnografia, física, geografia, geologia, mineralogia e botânica, e Gauss, um prodígio matemático desde a infância, com trabalhos até hoje insuperados, eram, ao seu tempo, luminares que haviam ficado velhos numa época de segunda categoria. Durante todo o sempre, deve ter sido muito difícil para as pessoas que andaram a frente do seu tempo, conviver numa época de segunda. Rio de Janeiro, 1951. No tempo do rádio a válvula, foi inaugurado à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, o Estádio de Remo. Quando as pessoas viram pela primeira vez a construção, a consideraram intoleravelmente nua, mas aos poucos foram se habituando a sua aparência despojada e a gostar dos contornos claros e formas simples do seu moderno estilo de engenharia. A arquitetura moderna que o caracterizou, vinha em progressão lenta desde a primeira metade do século XX, e encontrou o seu epicentro na Bauhaus de Dessau (1925-1932), na Alemanha. As teorias defendidas na Bauhaus estavam condensadas na convicção de que “se algo é unicamente projetado para corresponder à sua finalidade e função, podemos deixar que a beleza cuide de si mesma.” Por certo, existem coisas que são funcionalmente corretas e, no entanto, bastante feias ou, pelo menos, indiferentes. As melhores obras da arquitetura moderna são belas não só porque se ajustam à função para que foram construídas, mas porque foram projetadas por homens de gosto, que sabiam como construir uma edificação para uma certa finalidade, e que, no entanto, desejavam que a obra estivesse “certa” para os nossos olhos. O Estádio de Remo da Lagoa é digno do melhor conceito da Bauhaus. Rio de Janeiro, 2012. No tempo em que o funcional e a estética, a leveza e a visibilidade das formas, a conexão da vida com a arte são cada vez mais enfatizados, quando somente quatro anos nos separam da realização da Olimpíada do Rio de Janeiro, observamos o Estádio de Remo da Lagoa ser transfigurado em um trambolho de escadas, restaurantes, salas fechadas, chaminés, exaustores, aparelhos de ar-condicionado, enfim, uma “coisa” travestida de “bom negócio” por gente de segunda categoria.

Post Scriptum: “Tentar remendar um texto para levá-lo à perfeição que não teve em sua primeira forma, certamente, é vão e infrutífero. Assim, prefiro deixar o bom e o mau como estão e pensar em outra coisa.” (Aldous Huxley)

Categorias: Crônicas

2 comentário

Acácio · 21 de junho de 2026 às 19:01

Que lindo artigo sobre a história do remo, Seara

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