Até a última remada

Existem viagens que não queremos fazer, entretanto são necessárias. Uma história de sessenta anos não pode se encerrar de forma vazia, na verdade, ela não pode ser descontinuada.
– Eu acho que meu pai não está mais respirando. Disse à enfermeira na central de tratamento paliativo no Hospital do CEPON.
Suas mãos já não subiam e desciam mais com o vai e vem da sua barriga. Sua boca estava mais pálida. Sua pele estava sem viço. Coloquei em vão os dedos a frente de sua boca e das narinas ocupadas por canículas que tentavam oxigenar suas células exaustas pelas batalhas que enfrentaram nesses últimos tempos. Sua bochecha ainda estava morna. Não ousei conferir seu pulso. Sabia que nunca mais o encontraria.
Feita a auscultação e demais conferências, o que eu temia ouvir, ao mesmo tempo que sabia ser sua libertação, se confirmou: ele partiu.
Eu estava forte. De pé. Agora ele não podia mais me acudir. Olhei para a janela do hospital. O choro se derramou. Não havia mais ninguém ao meu lado. Já não via mais o seu sorriso ou seu olhar observador.
Solucei. Não sabia o que se passava comigo. Era muita emoção. A pior batalha que enfrentei na minha vida. De um lado, meu egoísmo material que queria tocar o meu pai. Ouvir sua voz e frases prontas adequadas para qualquer tipo de situação. No outro, meu lado evoluído, altruísta, que tem empatia com as pessoas. Esse lado me dizia, larga a mão dele, deixe-o partir.
Ele se foi. Meu irmão Du chegou. Como irmão mais velho, dessa vez eu nada pude fazer para protegê-lo. Não foi possível jogar uma couraça invisível para que a dor não o atingisse. Éramos dois seres indefesos. Vulneráveis.
Aguardamos o médico oficializar o óbito. Tal qual penas jogadas ao vento, a notícia se espalhou. O resto é burocracia e formalidades convencionadas até a solenidade de despedida no crematório.
Eu não posso deixar de raciocinar e captar o que ele me ensinou mesmo sem poder falar.
- É nos momentos mais difíceis que mostramos quem realmente somos.
- Sempre temos que enxergar o lado positivo das coisas. Sua partida me proporcionou encontrar amigos e parentes que não os via há muito tempo! Ainda conheci novas pessoas, novos amigos que ele fez.
Onde ele passava, sempre cativava as pessoas. Fazia conexões. Seu bom humor é fundamental.
E foi na voz de Elvis The King, não a do Sinatra, mais técnica, mas sem tanta paixão, que ele “face the final curtain”, com a música My way. Para mim, ela foi escrita para contar a vida do meu pai, e me fazer derreter pelos olhos “a emoção que não cabe no coração”.
Até então minha reverência a ele era infinita, agora também é eterna.
14 comentário
Fernando Oliveira de Miranda · 27 de junho de 2026 às 16:09
Fé e força, amigo. O nosso “barco” e o da tua família precisam do esforço de mais uma remada mesmo quando o corpo e a mente estão cansados e tristes.
historiasderemador · 27 de junho de 2026 às 17:25
Obrigado meu amigo
Jossiano · 27 de junho de 2026 às 16:31
Não há palavras para uma hora dessas.
Apenas o desejo de muita força, paz e luz para toda a família.
Um forte abraço.
historiasderemador · 27 de junho de 2026 às 17:25
Obrigado Multi Jossi
MARCIO FOGASSI ETCHEBEST · 27 de junho de 2026 às 16:45
Meus sentimentos, força aí amigo….
Fica os ensinamentos e tudo de melhor que ele te passou.
Grande abraço
historiasderemador · 27 de junho de 2026 às 17:24
Obrigado meu amigo
Acácio · 27 de junho de 2026 às 17:22
Emocionante, Seara! Emocionante!
historiasderemador · 28 de junho de 2026 às 11:34
Obrigado amigo
Cleusa · 27 de junho de 2026 às 17:55
Meu querido amigo, seu pai foi um gigante. Abraço você e a Gika com o coração.
historiasderemador · 28 de junho de 2026 às 11:34
Obrigado Cleusa. Ele foi sim
Luiz Felipe da Silva · 27 de junho de 2026 às 18:36
Até em um momento de dor você consegue ser brilhante nas palavras, meu amigo. Neste momento só quero desejar a você e sua família força e paz, amigo. Que o divino descanse os corações de cada um de todos os familiares e amigos e que as lembranças e legado eternizem o grande Seara! Sinta-se abraçado
historiasderemador · 28 de junho de 2026 às 11:35
Ele faria da mesma forma! Mas escreveria com mais qualidade e facilidade para entendermos
Ricardo Diefenthaeler · 28 de junho de 2026 às 12:24
O Seara Jr com certeza teve uma despedida digna da grande pessoa que era.
Muito legal a tua fala, Seara, conseguiu transmitir todo o carinho e admiração que tens pelo teu pai e também proporcionar aos que ouvem conhecer um pouco mais sobre ele.
Vai aqui o meu Hip-Há para o estimado Presidente da Feresc, que tive o prazer de conhecer lá nos anos 80!!
historiasderemador · 28 de junho de 2026 às 15:43
Fala meu voga! Sim, ele foi tudo isso que escrevi, e um pouco mais. Deixa um legado.